Turismo responsável: o que é e por que ele é essencial para quem viaja

27/10/2026

Foto: Eduardo Miyake

Se você é viajante, antes de tudo vamos propor um exercício: pare por 15 segundos e pense no que motiva você a viajar. Pensou? Entre todas as respostas que vieram à sua cabeça, em alguma delas você pensou que viaja para ver, experimentar e viver exatamente a mesma vida que você tem em casa? Provavelmente não. Talvez daí venha o ponto principal para a gente começar a entender o que é turismo responsável. 

“Quando você viaja, parte importante é ter relações com o meio de vida das pessoas locais, de entender e respeitar a cultura daquele destino. A partir do momento em que você faz isso, você já fortalece a comunidade e traz junto disso o cuidado com o meio ambiente. Está tudo conectado”, explica Tatiana Paixão, presidente do MUDA! Coletivo Brasileiro pelo Turismo Responsável. 

O conceito de turismo responsável foi redefinido em 2022, na Declaração da Cidade do Cabo sobre Turismo Responsável, como o turismo que busca criar lugares melhores para as pessoas viverem e visitarem. Ou seja: a ação turística precisa fazer sentido para quem vive no destino – e não só para quem visita o local. 

O que parece óbvio, mas nem sempre é assim. Diversas cidades ao redor do mundo têm se rebelado contra turistas. Não exatamente contra as pessoas, mas contra o chamado overturismo, o turismo em excesso, exagerado, que não respeita nem moradores, nem a natureza dos destinos. 

E se a natureza e a comunidade não forem mais o que são, você ainda vai querer viajar para o seu destino dos sonhos?

“Comecei a trabalhar com turismo em 2005, com uma pousada em Ilha Grande-RJ. Comecei a ver um crescimento desordenado, uma transformação muito grande. E foi aí que comecei a me incluir em projetos de sustentabilidade e a trabalhar construindo raízes que sustentam, não só no meio ambiente, mas no social e no econômico também”, conta Tatiana. 

Qual o conceito de turismo responsável?

É importante entender que o turismo responsável não é uma “modalidade” específica de turismo, como o ecoturismo ou o cicloturismo. Na verdade, é algo transversal que deveria permear qualquer atividade turística, com boas práticas sociais, ambientais e de gestão – com bastante relação com práticas ESG (ou ASG em português, englobando as áreas Ambiental, Social e Governança).

De acordo com o MUDA! Coletivo, o turismo responsável envolve viver experiências reais nos destinos, mas sempre envolvendo princípios de responsabilidade econômica, social e ambiental. Respeitar a cultura local, apoiar a economia local, ter consciência ambiental e não contribuir com práticas predatórias são parte fundamental do turismo responsável. 

Como o próprio site da associação explica, “enxergamos as viagens como um meio de criar e fortalecer relações humanas onde todos se beneficiam”. E se viajar é trocar a roupa da alma, como diz a frase atribuída a Mário Quintana, essa relação com o local para onde viajamos passa por respeitar as tradições culturais, conhecer coisas novas, viver experiências na natureza local e voltar para casa diferente de quando saímos. 

“Viajar é um ato transformador, tanto para o lugar, quanto para aquelas pessoas que estou visitando. Estou vivendo aquela história, perpetuando uma tradição, contando para outras pessoas quando volto para casa”, lembra Tatiana. 

“E estou me transformando também, porque o conhecimento transforma. Então o turismo responsável é também uma ferramenta de proteção ambiental e cultural”, completa. 

Qual a diferença entre turismo responsável e turismo sustentável? 

Assim como podemos dizer que o turismo responsável é transversal a qualquer prática turística, podemos falar que o turismo sustentável é parte intrínseca do que é o turismo responsável. Afinal, não existe responsabilidade sem sustentabilidade. 

“Se as ações do turismo são responsáveis, se elas norteiam o que você faz, consequentemente vai trazer sustentabilidade para o seu processo, independentemente se for gestão pública, hospedagem, agência ou alimentação. Se for verdadeiramente turismo responsável, a sustentabilidade vem junto nas ações dele”, aponta Tatiana. 

A conexão natureza-comunidade local é parte integrante do que imaginamos para o turismo responsável. Com uma visitação que cresce ano após ano nos Parques do Brasil, a vivência em meio ao ambiente natural precisa ser mantida – e isso tem nas comunidades tradicionais um grande defensor. 

Esta conexão vai além: os 7 princípios do turismo sustentável do Instituto Semeia se conectam totalmente com o turismo responsável, com tópicos como garantir bem-estar para quem visita e para quem recebe e salvaguardar o diálogo e a participação das comunidades locais.

Qual o turismo que queremos?

“Quando comecei a trabalhar com turismo, no começo dos anos 2000, sinto que as pessoas que vinham para o Jalapão tinham mais o perfil de relação com a natureza. Hoje, sinto que tem vindo muita gente que gosta muito de foto e que tem menos interação com o lugar”. 

A frase é de Vanderley Borges, que atua na região do Jalapão há quase 20 anos, e traz uma reflexão importante: com a popularização de alguns locais e a mudança no perfil de viajantes, qual é o turismo que queremos e como o turismo responsável pode ser parte deste processo? 

A resposta não é simples, e talvez nem seja tão direta assim. Além de presidente do MUDA! Coletivo, Tatiana Paixão também atua na área de hospedagem em locais que são parte de unidades de conservação: Ilha Grande-RJ, onde existe o Parque Estadual de Ilha Grande, e Caraíva-BA, onde estão a APA Caraíva-Trancoso e o Parque Nacional e Histórico do Monte Pascoal. E para ela, o turismo de massa acaba trazendo consequências não tão responsáveis. 

“Muitas pessoas vêm para Caraíva e querem viver as mesmas coisas, os mesmos luxos e caprichos, que vivem nas cidades delas. Querem a modinha, querem a foto mostrando onde estão, e não vivem a Caraíva de verdade, tradicional, de um lugar que inclusive é sagrado”, argumenta Tatiana.

“É claro que é possível um turismo responsável com um banho quente e uma cama boa. Mas seria legal as pessoas virem para cá para tomarem um banho de rio gostoso, sem aglomerações, sem as benditas caixinhas de som com música alta, comendo os peixes daqui”, completa. 

O turismo responsável é parte integrante de um turismo real: de conservação, de cultura e de história com todos os Brasis possíveis. Um turismo que transforma positivamente não só quem viaja, mas também as comunidades tradicionais, com vivências únicas e que marquem a memória para sempre. 

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