Turismo religioso: conheça Parques do Brasil que unem natureza e fé
07/04/2026
Foto: André Olmos
As belezas naturais do Brasil são conhecidas mundialmente. Mostra disso é o recorde histórico alcançado em 2025, com mais de 9,3 milhões de turistas estrangeiros visitando o nosso país – com quase metade deles querendo se conectar com a natureza. Ao mesmo tempo, outra forma de viajar tem ganhado destaque: o turismo religioso, que de acordo com o governo federal movimenta R$ 15 bilhões por ano.
Combinando o turismo de natureza com o turismo religioso, unimos duas tendências que conectam outra grande virtude do nosso país. Estamos falando dos Parques do Brasil. Afinal, uma boa parcela destes espaços já fazem parte da realidade de milhares de pessoas, com diferentes tipos de fé.
A ligação entre natureza e espiritualidade pode ser considerada ancestral. Praticamente todas as religiões têm no meio ambiente a expressão do sagrado – seja por criação divina ou por uma motivação ética do cuidado e conservação com a fauna, a flora e o planeta como um todo.
Turismo religioso: diversos parques brasileiros se relacionam com a fé
No Brasil, diversos parques contam com uma relação próxima com a fé, em diferentes formas de espiritualidade. Neste texto, trazemos alguns exemplos de áreas protegidas que são, ao mesmo tempo, ótimas escolhas para o turismo religioso, de diferentes crenças, e também para o ecoturismo.
Parque Nacional e Histórico do Monte Pascoal/BA
As formações naturais estão fortemente conectadas com diferentes tipos de fé. O Monte Pascoal, que segundo a História chamou a atenção dos portugueses quando eles ainda estavam nas caravelas no meio do oceano, já era moradia indígena muito antes de 1500, com forte significação espiritual e cultural para o povo Pataxó.
A área do Parque Nacional e Histórico do Monte Pascoal, localizado em Porto Seguro/BA, é um território sagrado para os Pataxó. Mais do que isso: o espaço abriga rituais de conexão com a natureza e a ancestralidade, como a Festa das Águas, para celebrar a chegada das chuvas, e o Awê-Herwê, um dos mais tradicionais festejos dos Pataxó.
Dentre as trilhas do Parque Monte Pascoal, duas delas têm conexão direta com o hierático: o Poço Sagrado, uma das nascentes do rio Corumbau e local de batismo de crianças Pataxó, e a Trilha da Juerana, também um santuário sagrado para os indígenas locais.

APA do Horto do Padre Cícero/CE
O Cariri cearense é um dos principais pontos de peregrinação religiosa no Brasil, especialmente por conta de Padre Cícero, filho da terra. A Colina do Horto, em Juazeiro do Norte, é o ponto central do turismo religioso na região – afinal, é onde se encontra a estátua do sacerdote, além da igreja e do museu.
Em 2022 o governo cearense transformou o lugar na APA do Horto do Padre Cícero, com mais de 1 mil hectares. O espaço, que já era visitado por mais de 2,5 milhões de pessoas por ano, passou a ser uma área protegida da Caatinga, pela importância da fauna, flora e da geologia local.
“Ainda que a pessoa não vá rezar, a visita ao Horto é um convite à reflexão, é muito emotiva e inspiradora. Fiquei bem tocada quando fui, observando e entendendo um pouco do que é o Brasil. E de lá de cima tem uma vista muito bonita para a Chapada do Araripe”, conta Renata Mendes, diretora executiva do Instituto Semeia.
“Quando você desce do Horto, tem uma casinha branca com um banquinho que é onde estão escritos os preceitos ecológicos do Padre Cícero, tudo está muito conectado com a natureza. E é muito interessante, porque é um homem que estava muito à frente do tempo dele, falando de conduta na Caatinga e de como viver uma vida de forma a ter comida e ter água, mas preservar a natureza. Que é um pouco do que fazemos hoje, com mais profundidade”, complementa.
A APA do Padre Cícero abriga rochas com mais de 600 milhões de anos e é um dos geossítios do Geoparque Araripe, um dos seis Geoparques Mundiais nomeados pela UNESCO no Brasil.

Turismo religioso e Caminho da Fé: parques com vias no entorno
Uma das trilhas de longo curso mais famosas do Brasil, o Caminho da Fé leva a espiritualidade até no nome. A travessia conta com 18 ramais diferentes, com trajetos distintos, que somam cerca de 2.500 km ao todo – sempre tendo o Santuário Nacional de Aparecida/SP, no Vale do Paraíba, como ponto de chegada.
Com mais de 20 anos de existência e inspiração no famoso Caminho de Santiago de Compostela, na Espanha, o Caminho da Fé é considerado uma trajetória de transformação.
“Naturalmente, a prática vai fazer você refletir sobre muitas coisas, se reconectar, se renovar, se descobrir. Vai fazer uma transformação na sua vida”, indica Camila Bassi, gestora executiva da Associação dos Amigos do Caminho da Fé.
Embora não tenha passagens diretas por unidades de conservação, alguns ramais passam no entorno de áreas protegidas. Especialmente a APA (Área de Proteção Ambiental) Fernão Dias/MG, a APA da Serra da Mantiqueira e o Monumento Natural Estadual da Pedra do Baú, em São Bento do Sapucaí/SP.
Para conhecer melhor o Caminho da Fé, clique aqui.

Parque Municipal Pedra de Xangô/BA
Inaugurado em 2022, na capital Salvador, o Parque Municipal Pedra de Xangô é considerado o primeiro do Brasil com nome homenageando um Orixá. O que já era um monumento sagrado para religiões de matriz africana, agora também se tornou oficialmente um espaço de integração entre cultura e natureza no coração da capital baiana.
A Pedra de Xangô é um monumento natural em uma área onde se fundou o Quilombo Buraco do Tatu, no século XVIII. O Parque está localizado na APA Vale da Avenida Assis Valente, que conta com remanescentes da Mata Atlântica.
A transformação do espaço em Parque faz com que, além da manutenção do turismo religioso com foco no candomblé e na umbanda, as belezas naturais sejam conservadas.
Parque Nacional do Monte Roraima/RR
Na tríplice fronteira entre Brasil, Venezuela e Guiana, o Parque Nacional do Monte Roraima é uma espetáculo da natureza. Com formações que remontam ao período pré-cambriano, com mais de 2 bilhões de anos, toda a área do parque tem também uma forte relação com o sagrado por povos indígenas venezuelanos e brasileiros.
Com pontos que chegam a mais de 2.800m de altitude, toda a região do Parque Nacional conta com um ecossistema único, que inclui piscinas naturais de águas cristalinas, visuais acima das nuvens e um lugar espiritual pelo povo venezuelano Pemón e pelos povos brasileiros Ingaricó e Macuxi, que consideram o local a Casa de Makunaimã, herói mítico com poderes mágicos.
A combinação de espiritualidade ancestral e a riqueza natural abundante transformou o Monte Roraima, localizado dentro do Parque Nacional, em um dos Sítios Naturais Sagrados do Brasil. Clique aqui para conhecer mais sobre estes espaços.
Parque Estadual da Serra da Baitaca/PR
Localizado na região metropolitana de Curitiba, o Parque da Serra da Baitaca, uma das unidades de conservação mais visitadas do Paraná em 2025, tem uma história conectada com o turismo religioso.
Local de grande relevância para a Mata Atlântica, com rios, cachoeiras e muitas trilhas para caminhadas e também escaladas, o Parque conta com uma história conectada com o místico. Um dos pontos de maior visitação é o morro do Anhangava, que tem no próprio nome essa relação com o sagrado: o nome da montanha, em tradução livre, é algo como “Morada do Anhangá”, espírito poderoso da mitologia tupi e protetor dos animais e matas, mas associado ao diabo por jesuítas e colonizadores.
Ao longo do tempo essa relação com diferentes tipos de religião foi se alterando. Hoje, o Parque da Serra da Baitaca recebe missas e atos religiosos católicos, com caminhadas pelo interior do parque em liturgias que começaram nos anos 50.

Parque Nacional da Tijuca/RJ
Entre os principais cartões-postais do Brasil está, ao mesmo tempo, conectado com o turismo religioso e com o ecoturismo. O Cristo Redentor, localizado no morro do Corcovado, está situado dentro do Parque Nacional da Tijuca – a unidade de conservação mais visitada do Brasil e uma das 7 maravilhas do mundo moderno.
Crença e natureza coexistem no Parque: no mesmo momento em que conta com um dos principais símbolos religiosos do planeta, é inegável a relevância da natureza que envolve o Parque. Ela tem história de mais de 100 anos: mais precisamente em 1861, quando D. Pedro II determinou que as florestas da Tijuca e das Paineiras eram Florestas Protetoras, o que tornou o local como uma das primeiras grandes áreas protegidas do planeta.