Pessoas idosas e a natureza: como a vida ao ar livre influencia o bem-estar da população 60+
17/06/2026
“Cachoeira é um banho de energia, água pura, água limpa, é força da natureza. E natureza é paz, é energia boa, é esse sentimento de intimidade que a gente tem com ela”.
A frase que abre este texto é de uma das mais de 34 milhões de pessoas idosas do Brasil: Izabel Lyra, uma mulher de 83 anos que recentemente voltou de uma viagem ao Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros/GO e já planeja visitas a outros parques pelo país.
Nascida em São José da Laje/AL e “viajante aventureira” desde que se entende por gente, pode parecer que a realidade de dona Izabel seja diferente de todas as pessoas idosas brasileiras. A realidade, porém, não é exatamente assim.
A população 60+ tem crescido com consistência no Brasil. O mais recente estudo do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) apontou um acréscimo de 16,6% nesta faixa etária – e a relação pessoas idosas e natureza pode auxiliar a que a qualidade de vida destes indivíduos seja ainda maior. Assim, é natural que cada vez mais pessoas idosas visitem parques naturais e urbanos por todo o país.
“Estudos dão conta de que nos próximos anos as pessoas idosas farão parte do maior grupo na sociedade brasileira. As condições de saúde de uma pessoa de 60 anos é melhor do que era no passado”, comenta Luiz Del Vigna, diretor executivo da Abeta (Associação Brasileira das Empresas de Ecoturismo e Turismo de Aventura).
“E a natureza tem a capacidade de atuar como se fosse um remédio, tornando a vida ainda melhor para essas pessoas. Especificamente no caso do turismo de natureza e a visita a parques, é uma ótima oportunidade de atividade física, de caminhada no ambiente natural, o que comprovadamente provoca sensações e emoções que contribuem para a uma série de fatores na vida destas pessoas”, complementa.
História e experiência das pessoas idosas: visitando um Brasil que não existe mais
Desde muito jovem, dona Izabel sempre gostou de viajar. A paixão pela natureza nasceu ainda pequeninha, em Alagoas, onde cresceu em uma região com remanescentes de Mata Atlântica. Com cerca de 10 anos se mudou para o agreste pernambucano, mais precisamente a cidade de Garanhuns. É a partir desta época que se lembra de duas viagens que marcaram a juventude: as visitas ao Parque Nacional de Ubajara/CE e ao Parque Nacional do Iguaçu/PR.
“Na medida do possível, consegui fazer viagens muito interessantes. Em Ubajara, acho que fui antes mesmo de se tornar um parque. A gente descia para as grutas de lá dentro de um cesto, já era uma aventura”, recorda dona Izabel.
A fundação do Parque Nacional de Ubajara data de 1959, o que significa que é realmente possível que ela tenha visitado a região antes mesmo da oficialização de uma unidade de conservação.

Ubajara faz parte dos parques nacionais mais antigos do Brasil. Criado apenas dois anos depois, o Parque Nacional de Sete Quedas, no Paraná, abrigava o maior complexo de cachoeiras em volume de água do mundo – mas foi desativado e teve as quedas tomadas pela Usina de Itaipu, em 1982. Antes disso, porém, Luiz Del Vigna teve o privilégio de visitar o local acompanhado da mãe e do pai.
“Pessoas da minha idade e pessoas mais velhas do que eu tiveram a oportunidade de viver uma natureza brasileira em que os rios eram mais limpos, as matas eram mais matas, os bichos eram mais bichos, se é que você me entende. Sobretudo nos últimos 20 anos, mudanças profundas vêm acontecendo no ambiente natural”, afirma ele, que tem 63 anos.

“Mas o Brasil ainda tem muito a ser visitado, ainda tem uma natureza profundamente exuberante conservada especialmente em áreas de parques. Uma das experiências mais marcantes é poder vivenciar essa alegria no ambiente natural, se encantar com o ambiente natural”, complementa.
Dona Izabel e o turismo de aventura na Chapada dos Veadeiros
Da visita a Ubajara até a viagem mais recente a um parque nacional – a viagem ao lado da filha Raiana para comemorar o aniversário dela na Chapada dos Veadeiros – dona Izabel viveu muitas aventuras pelo Brasil e até mesmo internacionais. E afirma que, para ela, não tem nada como viajar na natureza.
“Passamos uns dias em Brasília e depois fomos para a Chapada dos Veadeiros, que é um lugar fantástico. Uma natureza muito diferente da que estou acostumada, o bioma, a vegetação e as cachoeiras. Eu adoro cachoeiras”, comemora.
Entre as atividades, dona Izabel fez trilhas dentro do Parque Nacional, frequentou cachoeiras e, inclusive, fez um voo de tirolesa a cerca de 100m de altura.
“Estávamos em quatro pessoas. E ninguém estava muito disposta a ir. Mas minha mãe convenceu todo mundo”, lembra a filha Raiana, aos risos.
“Mas eu nunca tinha andado de tirolesa! Falei que queria ir e fomos todas. Adorei a experiência, me senti muito segura”, completa dona Izabel.
Na lista de desejos de viagem dela e da filha Raiana, dois lugares merecem destaque especial e devem ser os próximos destinos: o Parque Nacional da Chapada Diamantina/BA e o Parque Nacional da Chapada das Mesas/MA.
Pessoas idosas e natureza: cuidados ao planejar uma viagem
Visitar parques e vivenciar o ambiente natural funciona, como disse Del Vigna, quase como um remédio – e diversos estudos e pesquisas mostram isso. Planejar uma viagem ou passeio na natureza, especialmente envolvendo pessoas idosas, exige alguns preparativos específicos.
Listamos aqui quatro deles que consideramos muito importantes.
Esteja com as condições físicas ideias para a atividade: estar fisicamente apto para a atividade que queira desenvolver, seja uma caminhada ou uma observação de aves, é essencial para uma aventura prazerosa.
“Fazer musculação foi uma das minhas maiores resistências. Já fazia hidroginástica, que sempre gostei, mas começar a fazer musculação me ajudou muito nessa viagem para a Chapada”, recomenda Dona Izabel.
Contração de guia ou condutor de turismo: além de ter alguém para, literalmente, guiar pelos caminhos, a presença de um profissional torna os passeios muito mais interessantes, inclusive por indicar as melhores atividades.

“Recomendamos sempre a contratação de um guia ou condutor capacitado. Se vai entrar no ambiente natural, que por si só implica riscos, é importante que esteja com um profissional, que conheça as normas corretas para uma aventura segura”, orienta Del Vigna.
Saiba seus limites: saber os limites do seu próprio corpo, e do que você gosta, é fundamental para uma viagem tranquila. Nem todo mundo precisa voar de tirolesa como a dona Izabel: se você prefere manter os pés no chão, procure atrativos e atividades que se encaixem ao que você gosta de fazer.
Além disso, é importante que você respeite os seus limites e que esteja com os exames médicos em dia. Segurança sempre em primeiro lugar.
Aproveite a companhia de outras pessoas: viajar com mais gente tem o poder de tornar as viagens ainda mais prazerosas – seja para pessoas idosas ou não. E estimular viagens com pessoas de diferentes faixas etárias também pode trazer muitos benefícios.
“As viagens são muito diferentes. Uma viagem com pessoas idosas faz a gente aproveitar a natureza de um outro jeito, com um passo mais lento, com uma forma diferente de desfrutar. E ainda criamos memórias junto com as pessoas que a gente ama. Estimular as pessoas idosas a se movimentarem e fazer coisas juntos com elas. É muito enriquecedor”, comenta Raiana.
O diretor da Abeta tem opinião parecida:
“Recentemente levei meus sobrinho-neto, meus netinhos que eu chamo, para passarmos 10 dias na floresta amazônica. O ambiente natural, os idosos como eu e as crianças acabam criando uma conexão muito interessante. Nós somos natureza e poder conectar a experiência e a sabedoria das pessoas idosas com a curiosidade infantil, no ambiente natural, é uma química incrível que faz muito bem e deixa o velhinho aqui um pouco mais criança.”