Caminhos da Ibiapaba: conheça a trilha que passa por três biomas e conecta dois parques nacionais 

Entre Ceará e Piauí, trilha de longo curso conecta os parques de Ubajara e Sete Cidades, passando por Caatinga, Cerrado e Mata Atlântica

30/07/2026

Foto: Mariana Haddad

Uma viagem pela biodiversidade brasileira, em pouco mais de 180 quilômetros. Esse pode ser um resumo do que é a Caminhos da Ibiapaba: trilha de longo curso que vai do Ceará ao Piauí, unindo o Parque Nacional de Ubajara ao Parque Nacional de Sete Cidades e passando por três dos seis biomas brasileiros. 

Embora tenha trechos de Cerrado e também de Mata Atlântica, a trilha Caminhos da Ibiapaba é a primeira homologada pela Rede Brasileira de Trilhas de Longo Curso e reconhecida pelo governo federal que cruza a Caatinga. 

São 185km de trilha, que podem ser percorridos a pé ou de bicicleta – seja o trajeto completo ou alguma parte dos 13 trechos que compõem a trilha completa. Pelo caminho, uma biodiversidade que chama a atenção: vegetação rica, mirantes, pinturas rupestres, cachoeiras, a imponência da Serra da Ibiapaba, formações rochosas milenares, a magnitude de dois parques nacionais e a força da APA (Área de Proteção Ambiental) Serra da Ibiapaba, que também está no percurso. 

“A diversidade natural e cultural da trilha Caminhos da Ibiapaba é absurda. Tem área de serra com temperaturas amenas, dentro do Piauí e do Ceará, que as pessoas não imaginam que existe. E tem a questão de passar por três biomas, que é algo único”, explica Waldemar Justo, gestor do Parque Nacional de Sete Cidades que está envolvido com a Caminhos da Ibiapaba desde a idealização do projeto. 

Por que fazer a trilha Caminhos da Ibiapaba?

O primeiro ponto para quem quer percorrer os Caminhos da Ibiapaba é que toda a rota faz parte de uma área de grande relevância ambiental. Os contrastes da natureza da região chamam a atenção – e só são possíveis por integrarem três unidades de conservação, como os dois parques nacionais e a APA Serra da Ibiapaba. 

Mais do que a presença constante da natureza abundante da Caatinga, com trechos de Cerrado e Mata Atlântica, ciclistas e caminhantes terão outra companhia: as pegadas pretas e amarelas que já são marca registrada das trilhas de longo curso do Brasil. A contratação de guias e condutores cadastrados é recomendada, mas é bom saber que todo o trajeto da Caminhos da Ibiapaba é sinalizado de acordo com o padrão nacional. 

“Eu diria que ela é uma trilha modelo para o Brasil. Primeiro porque ela começou com a conexão de duas unidades de conservação, que estão em estados diferentes”, comenta Waldemar. 

“O segundo ponto é que o trajeto da Caminhos da Ibiapaba é uma trilha que passa por lugares onde quase ninguém passava, pelo sertão do Ceará e do Piauí, em comunidades sem tantas oportunidades. É um Brasil que as pessoas ainda conhecem pouco”, complementa. 

Foto: Marko Montenegro

A conexão de dois parques nacionais é outro grande diferencial. Se entre os dois parques, pela trilha Caminhos da Ibiapaba a distância é de 185 km, dentro das duas unidades de conservação a variedade de atrativos também é grande: cerca de 60 km da trilha está dentro do Parque Nacional de Ubajara, enquanto 12 km está dentro do Parque Nacional de Sete Cidades.

O que significa que a trilha Caminhos da Ibiapaba é a oportunidade de conhecer duas unidades de conservação repletas de atrações e que compartilham entre si outra característica peculiar: estão entre os 4 menores parques nacionais do Brasil, ao lado do Parque da Tijuca/RJ e do Parque Marinho das Ilhas dos Currais/PR.

“As pessoas se surpreendem com o que existe lá. Muita gente pergunta como consegue estar numa região fria dentro do Ceará, e também se surpreendem com o Sete Cidades, que é de fato bem diferente”, explica Eduardo Lopes, sócio da agência Via de Aventura e integrante da Comissão da Trilha Caminhos da Ibiapaba.  

Passear por estes caminhos é também passar uma parte da história do Brasil. O trecho que interliga Ceará e Piauí é uma rota antiga dos comboieiros, que transportavam itens até o Maranhão. Algumas comunidades ainda preservam casarios do século 17. 

Por onde passa a trilha Caminhos da Ibiapaba? 

Uma travessia é feita saindo de um ponto e chegando em outro – no caso de uma trilha de longo curso, as travessias englobam viagens a pé ou de bicicleta em que é preciso pernoitar. Neste sentido, é possível fazer esta trilha em qualquer direção, seja do Piauí ao Ceará ou do Ceará ao Piauí. 

Entretanto, a indicação para a Caminhos da Ibiapaba é sair do cearense Parque Nacional de Ubajara e seguir para o piauiense Parque Nacional de Sete Cidades. Por quê? Por conta da belíssima e imponente Serra da Ibiapaba: neste sentido, o caminho é descendo a serra. 

“Este é outro diferencial da Caminhos da Ibiapaba. A trilha é pensada não só para quem é atleta, aquela pessoa que quer se desafiar. Ela foi pensada também para quem é turista, que quer só conhecer, para a comunidade, para todos os níveis e todas as opções de pessoas que queiram utilizar a trilha”, explica Waldemar, que já fez a trilha algumas vezes. 

Além de ser um trajeto totalmente sinalizado com as pegadas amarelas e pretas, a trilha é também diversa: três biomas, três unidades de conservação e uma beleza que vai se alterando à medida em que se desce a Serra da Ibiapaba. 

A trilha Caminhos da Ibiapaba começa com a Mata Atlântica no alto da serra (embora o Parque de Ubajara esteja em uma área de Caatinga, é uma área de transição com a Mata Atlântica, com mata úmida e árvores altas). Em seguida, o viajante desce a Caatinga passando pela APA Serra da Ibiapaba e na sequência entra no Cerrado, já nas redondezas do Parque Nacional de Sete Cidades.  

De uma maneira mais simplista, é uma trilha que começa no friozinho da serra, passa pelo meio do sertão nordestino, atravessa a Caatinga e chega ao cerrado – tudo isso em apenas 185 km, passando por apenas 2 dos 26 estados. É a diversidade que representa o Brasil, o país mais biodiverso do planeta

Para esta verdadeira viagem natural, a travessia completa  dura entre 5 e 6 dias – mas pode variar muito a depender dos objetivos que estiver caminhando ou pedalando. Pelo caminho, além dos atrativos dos dois parques nacionais, o Caminhos da Ibiapaba conta com a variedade imensa dos ecossistemas nordestinos, sítios arqueológicos, rios, cachoeiras e vistas que não sairão mais da lembrança. 

Mais do que a natureza que salta aos olhos, no caminho ainda é possível fazer degustação de café e se deparar com uma rica gastronomia, engenhos de cana de açúcar (onde é possível ver a produção de rapadura e cachaça), plantações de rosas, ótimos pontos de apoio, casas de farinha, museu e até um observatório astronômico. 

Foto: Marko Montenegro

Quem são as pessoas pelos Caminhos da Ibiapaba? 

“O que mais me causa admiração nos Caminhos da Ibiapaba são as pessoas. A forma como as pessoas do Piauí e do Ceará recebem quem passa pela trilha é um dos grandes diferenciais. Especialmente o curiólogo, nunca vi um condutor atender com tanta maestria em cada vírgula”. 

A frase do guia Eduardo Lopes aponta para outra das magias do Caminhos da Ibiapaba: as pessoas. Citado por ele, o curiólogo é Oziel Monteiro – criado na comunidade Bacuri, dentro dos limites do Parque Nacional de Sete Cidades. 

Ele ganhou o apelido em uma pesquisa com biólogos em 2004. De tanta curiosidade, surgiu o apelido curiólogo, que ele usa com orgulho até hoje. 

“O Parque Nacional de Sete Cidades é minha grande casa geológica. Sou a quarta geração, me criei dentro do parque, praticamente todas as trilhas e caminhos foram abertas pela minha família”, explica Oziel. 

No quintal da família, ele criou o Quintal do Curiólogo, uma área na comunidade Vamos Vendo, a cerca de 500m da entrada do Parque, com belas paisagens e também com possibilidade de pernoite. 

“Nosso parque é uma eterna universidade. As pessoas que vierem para a trilha Caminhos da Ibiapaba vão ganhar saúde, pertencimento e cultura social. É imperdível a vivência em cada comunidade por onde passa a trilha”, explica o curiólogo.  

De acordo com Waldemar, gestor do Parque de Sete Cidades, o projeto da trilha Caminhos da Ibiapaba também tem o objetivo de fortalecer as comunidades, que hoje oferecem serviços como hospedagem e alimentação para os visitantes. É o turismo fazendo parte da vida das pessoas que moram no entorno das unidades de conservação. 

Para os visitantes, também uma boa notícia: com hospedagens que podem ser em campings, glampings e pousadas, de Ubajara até Sete Cidades, além de pontos de apoio e locais para refeição – incluindo iniciativas de turismo de base comunitária. 

Em relação a guias e condutores, um grupo de cerca de 30 pessoas está se capacitando em  um curso de formação de condutores de turismo de aventura, cicloturismo e caminhadas de longo curso. 

“Estamos neste processo, para atender da melhor forma possível os turistas. A segunda etapa da Caminhos da Ibiapaba passa por tornar esse produto turístico de uma maneira ainda mais profissional e sustentável para as pessoas que querem visitar”, explica Waldemar.

Informações de Visitação

Hospedagem, restaurantes e guias

A Caminhos da Ibiapaba é uma trilha nova: homologada no início de 2026, conectando os parques nacionais de Sete Cidades e de Ubajara. Por isso, mesmo que ela seja toda sinalizada, é importante contar com o apoio de guias e condutores capacitados. 

Neste link tem a demarcação com o mapa completo da Caminhos da Ibiapaba, com todos os 13 trechos da trilha de longo curso, assim como a lista com os atrativos dos parques nacionais, as ramificações da trilha e as comunidades por onde passa o trajeto. 

Na página oficial da trilha no Instagram você encontra mais informações para auxiliar a planejar – seja para fazer o caminho completo ou para algum dos trechos. Para informações sobre guias, o mais indicado é procurar a Via de Aventura

Como chegar ao início da trilha Caminhos da Ibiapaba

O caminho mais tradicional da travessia Caminhos da Ibiapaba se inicia no Parque Nacional de Ubajara. Existem duas possibilidades de aeroportos próximos: o de Fortaleza, a cerca de 320 km de distância, e o de Teresina, a cerca de 300 km.  

Também é possível ir de ônibus a partir de Fortaleza, com opções a partir da rodoviária da cidade – o trajeto dura cerca de 7h.  

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