Natureza e saúde: como os parques naturais podem contribuir para diminuir estresse e ansiedade
Em um momento em que a saúde mental é preocupação global, a ciência aponta que o contato com o ambiente natural é um poderoso aliado
07/01/2026
Nos primeiros 25 anos do século XXI a humanidade tem vivido uma crise relacionada a transtornos mentais. Dados da OMS (Organização Mundial de Saúde) mostram que são mais de 1 bilhão de pessoas convivendo com questões como ansiedade e depressão, além de uma preocupação constante da população brasileira com o tema. A ciência, porém, aponta um caminho para auxiliar neste desafio: natureza e saúde mental caminhando lado a lado.
Mais do que a redução da pressão arterial e da prevenção de doenças cardiovasculares e respiratórias (como indica este estudo da WWF, em inglês), realizar atividades em ambientes naturais e estar em contato direto com o meio ambiente traz avanços no humor, na mentalidade e impacta diretamente na melhora do bem-estar das pessoas.
São diversos os estudos dos últimos anos que mostram que a relação natureza e saúde mental é uma aliada poderosa para a nossa vida – como mostra este artigo da National Geographic.
Letícia Alves é uma das pessoas que entendem, na prática e na teoria, que a maior conexão entre o ser humano e o ambiente natural traz benefícios para a mente. Uma das metades responsáveis pelo projeto Entreparques, ao lado do marido Dennis Hyde, ela visitou todos os parques nacionais brasileiros. Mas além da conexão autêntica com os ambientes naturais do Brasil, ela também é psicóloga, especialista em técnicas não verbais.
“Nos últimos 50 anos, a população brasileira deixou de ser majoritariamente rural, e hoje somos 87% urbanos. É um número gritante, porque antes mais da metade da população brasileira morava numa área rural, em contato direto com a natureza”, lembra Letícia.

“Juntando isso com as tecnologias, o cenário fica mais amplo. Porque para o desenvolvimento humano a gente requer o uso de todos os nossos sentidos. E se ficamos apenas olhando para uma tela, restringimos isso a um único sentido, a visão. Precisamos do tato, do cheiro, do sentir, e não de um distanciamento completo da experiência real”, complementa.
Sobre o tema, uma das pioneiras mundiais no conceito de ecopsicologia, a norte-americana Chellis Glendinning desenvolveu estudos que apontam que o ser humano do século XXI está viciado em tecnologia. A vida através de telas, é claro, traz alguns benefícios para a humanidade de maneira geral. Mas é preciso encontrar um equilíbrio.
“O celular, hoje, é essa ferramenta que faz com que ninguém mais saiba o que é ficar sozinho. É como se fosse uma fuga. Mas a vida tem processos que, muitas vezes, são incômodos e doloridos, e a gente precisa passar por eles. E estar na natureza, podendo vivenciar o momento presente, pode auxiliar a lidar melhor com isso”, comenta Letícia.
Natureza e saúde: países já prescrevem contato natural em receita médica
Vivenciar o ambiente natural, além de cientificamente comprovado, já é utilizado em algumas partes do mundo como receita médica. Países como Suécia, Escócia, Japão e Canadá possuem programas em que profissionais da saúde prescrevem mais caminhadas e passeios ao ar livre para pessoas – especialmente com foco em saúde mental.
Se o déficit de natureza é uma das questões que ampliam as chances de problemas como ansiedade, estresse e depressão, faz todo o sentido que cada vez mais projetos com esse foco ganhem mais adeptos. No Brasil, uma destas iniciativas é o Banho de Floresta no Parque Nacional de Brasília/DF.
Desenvolvido por meio de uma parceria entre WWF-Brasil, Instituto Brasileiro de Ecopsicologia (IBE), Fiocruz, ICMBio e o próprio Parque, o programa se inspirou na técnica japonesa shinrin-yoku – uma imersão consciente na natureza, para ampliar os benefícios.
“Na nossa experiência no Parque Nacional de Brasília, os relatos das pessoas participantes são, invariavelmente, muito tocantes. Pessoas que dizem que, pela primeira vez, conseguiram se conectar com um silêncio muito profundo, um estado de tranquilidade que não tinham experimentado”, explica Marco Aurélio Bilibio Carvalho, diretor do IBE.
“Encontros com a floresta, encantamentos com a floresta, sentimentos de retorno à infância para aquelas pessoas que tiveram uma vivência mais íntima de floresta, de mata, e que vivem na cidade”, complementa.
Esta conexão entre natureza e saúde está diretamente ligada às sensações que a relação com o ambiente natural trazem a cada pessoa. Se o mundo cada vez mais está voltado ao tecnológico, como fazer com que os jovens de hoje criem essas memórias com a natureza?
“Como é que vai ser daqui a 30, 40 anos se a gente não introduzir essas crianças ao mundo natural? É importante que os jovens de hoje criem esse vínculo afetivo com o ambiente natural, senão elas não vão poder voltar para esse lugar lá na frente e resgatar todas essas memórias positivas”, pondera Letícia.
Parques urbanos: o caminho para introdução ao ambiente natural
O Brasil é um lugar perfeito para banhos de florestas: seis biomas, paisagens deslumbrantes e quase 600 parques naturais à disposição da população. Ou seja: a melhora da saúde mental brasileira passa por uma ampliação no número de visitação dos parques brasileiros. Porém, dentre todas estas unidades de conservação, qual o melhor lugar para ampliar a relação natureza e saúde na sua vida?
De acordo com dados do IBGE, mais de 115 milhões de pessoas (ou 56% da população) moram em pouco mais de 5% dos municípios do país. O que significa que a rotina da maioria de brasileiros e brasileiras, para além de telas, está conectada a asfalto, concreto e exposição à poluição. Neste contexto, os parques urbanos aparecem como uma excelente opção.
“Acredito que os parques urbanos são uma excelente porta de entrada para uma parcela da população. Afinal, são os parques ao lado da casa das pessoas, né? Ao mesmo tempo, acho importante proporcionar que as pessoas se aprofundem nas camadas de relação com os parques, para que não fique só uma relação utilitarista, de ir ao parque só para correr, por exemplo”, reflete Letícia.
“Os banhos de floresta ainda são um conceito não tão conhecido por grande parte da população, mas as evidências são muito fortes. Sugiro que as pessoas se informem sobre eles e possam experimentar na prática a melhoria na vida delas”, explica Marco Aurélio, um dos pioneiros em ecopsicologia no Brasil.
Os diversos estudos científicos comprovam a teoria. Os depoimentos de milhares de pessoas mostram na prática. Os dados somados mostram que, de fato, o contato com o ambiente natural é um aliado poderosíssimo para a redução dos alarmantes números de ansiedade e transtornos mentais da humanidade.
A reflexão que fica é que os parques naturais brasileiros, além de todos os outros benefícios que agregam, podem ser um excelente remédio para a população. O desafio, já aceito pelo Instituto Semeia, é ampliar a prática para um número cada vez maior de pessoas.