Nem privatização nem milagre: o que o debate sobre as concessões dos parques de São Paulo está deixando de considerar
Artigo escrito por Pedro Passos, Renata Mendes e Bárbara Matos, do Instituto Semeia
08/10/2026
Nos últimos meses, diversos artigos e vídeos publicados na imprensa e nas redes sociais têm discutido o tema das concessões nos parques urbanos de São Paulo. O assunto ganhou tom polêmico, o que mobilizou a população e tem gerado alto engajamento e visibilidade. Para além do “certo e errado”, “contra ou a favor”, queremos oferecer nossa contribuição para que esse momento, de tantas opiniões e provocações, possa ganhar profundidade e lucidez, contribuindo, de fato, para o avanço desta política pública.
O Instituto Semeia acompanha há 15 anos a construção e o aprimoramento deste modelo de parceria em parques de todo o Brasil e pode afirmar que a participação da sociedade tem sido positiva para sinalizar o que está funcionando e o que não faz sentido para o uso desses espaços verdes no dia a dia. A mobilização social que esses conteúdos causaram em torno de um tema ainda tão impopular e desconhecido é muito positiva. A fiscalização da sociedade, do poder público, da academia e dos veículos de comunicação é indispensável para o aperfeiçoamento das concessões.
Por outro lado, não vamos caminhar nesta discussão de forma frutífera se nos esquecermos que, na prática, muitos parques que hoje contam com concessões já enfrentavam desafios históricos: limitações orçamentárias, infraestrutura degradada, equipamentos fechados, baixa oferta de atividades e dificuldades para garantir a manutenção contínua e a segurança aos visitantes. Essa é a dura realidade que enfrentam áreas protegidas Brasil afora. A comparação adequada, portanto, não é entre um parque ideal e um parque com concessão.
Ainda não temos no Brasil a cultura de avaliar políticas públicas com base em dados e evidências, mas, para esse caso especificamente, as pesquisas de satisfação realizadas periodicamente junto aos usuários de parques oferecem insumos importantes para avaliar o andamento das concessões. Realizadas por institutos independentes, elas são trimestrais e estão publicadas no site da Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente. Os resultados mais recentes, na contramão do que apontam as críticas, indicam níveis altos de satisfação geral, em uma escala que varia de 0 a 1, sendo 1 a nota máxima: Ibirapuera (0,88), Lajeado (0,93), Faria Lima (0,92), Jardim Felicidade (0,88), Eucaliptos (0,93) e Jacinto Alberto (0,90).
Um argumento recorrente é o de que as concessões estariam transformando os parques em espaços excessivamente comercializados, com perda de sua vocação pública em razão da ampliação de eventos, serviços e atividades econômicas. No entanto, essa percepção não se reflete nestas pesquisas de satisfação realizadas com usuários ao longo dos últimos anos. Ou seja, ainda que este fato desagrade uma parcela, não podemos afirmar que desagrade a maior parte dos usuários. Por outro lado, as pesquisas refletem, por exemplo, a percepção negativa sobre os preços de alimentos e bebidas no Parque Ibirapuera, indicador que concentra os maiores índices de insatisfação dos usuários e merece atenção tanto da concessionária quanto do poder concedente. Da mesma forma, a acessibilidade no Parque Jardim Felicidade apresentou desempenho inferior aos demais indicadores, apontando um aspecto concreto que pode ser aperfeiçoado. Infelizmente, esse tipo de avaliação só é possível para um pequeno rol de parques em São Paulo que disponibilizam dados públicos, e não pode ser estendida para todos os parques concedidos, que incluem também parques estaduais.
Nós recomendamos que concessionárias e governos ampliem e divulguem periodicamente as pesquisas de satisfação realizadas por institutos de pesquisa independentes para todos os parques. Essas informações permitem que a gestão das concessões seja monitorada e aprimorada pelo poder público com base em dados fornecidos pelos milhares de usuários entrevistados. Os dados também permitem que a sociedade e a imprensa acompanhem de modo qualificado a evolução da qualidade dos serviços, identifiquem problemas e cobrem soluções.
Outro aspecto inerente às concessões de parques urbanos que tem sido negligenciado é o fato de que este modelo de parceria permite que o poder público direcione esforços e investimentos para outras áreas verdes da cidade, especialmente parques de menor porte ou localizados em regiões periféricas, contribuindo para reduzir desigualdades de acesso ao lazer, à cultura e ao contato com a natureza (como é o caso dos parques localizados na capital paulista Tenente Brigadeiro Faria Lima, Jardim Felicidade, Jacinto Alberto, Lajeado e Eucaliptos, que foram licitados juntamente com o Parque Ibirapuera). O sucesso dessa política, portanto, deve ser medido pelo conjunto do sistema de parques, e não apenas pelos equipamentos de maior visibilidade.
Hoje existem 39 contratos de concessão vigentes nos parques naturais e urbanos em todo o país, a maioria com 5 a 6 anos de atividade, sendo esse um modelo de gestão ainda recente e em aprimoramento. O último diagnóstico que realizamos em 2025 apontou que a gestão e a governança dos contratos aparecem como os principais pontos de atenção. Cerca de 60% dos gestores consideram que os governos não possuem ferramentas adequadas para gerir e fiscalizar os contratos. Por outro lado, 77% dos gestores demonstram satisfação com as iniciativas das concessionárias para atrair novos visitantes e 76% reconhecem a preocupação em oferecer atividades voltadas ao público infantil.
As concessões são meios, não fins. O objetivo maior é que elas apoiem os governos para garantir que os parques cumpram sua função ambiental, social, cultural e de promoção da saúde e da qualidade de vida da população. Para que isso aconteça, além das pesquisas de satisfação públicas e independentes, transparência na gestão dos contratos e da ampliação dos canais de diálogo e participação social, é fundamental o fortalecimento os órgãos gestores desses contratos, por meio da criação de equipes multidisciplinares, oferta de capacitação contínua, adoção de ferramentas tecnológicas e padronização de procedimentos de fiscalização e acompanhamento contratual.
Da mesma forma, é importante que esse debate seja conduzido com base em evidências e considerando, na prática, os desafios orçamentários que todos os governos enfrentam, não apenas em São Paulo. Generalizações construídas a partir de casos específicos podem produzir um efeito indesejado: desacreditar instrumentos que têm permitido ampliar investimentos, qualificar a gestão e fortalecer a política pública de parques urbanos justamente em um momento em que cidades brasileiras precisam de mais áreas verdes disponíveis.